Segunda-feira, 30 de Agosto de 2004

Dante

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Este fim semana, um acidente doméstico ocorreu a um familiar meu, nada de importante, mas obrigou-me a levar a minha tia velhinha (85 anos) ao hospital. Ela mora na margem sul, logo acorri com ela ao hospital Garcia Horta.
Lá chegados (urgências), é feito um pré rastreio e o doente encaminhado lá para dentro. É aqui que começa a caminhada no inferno, qual livro de Dante.
Ao lado duma sala de espera, onde se juntam doentes para consultas externas e familiares de outros doentes que deram entrada na urgências, existe uma porta que faz a divisão para o banco de urgência propriamente dito. Nessa porta, está um segurança contratado (de uma dessas empresas de segurança) a que passarei a chamar de gorila (uma montanha de músculos, cabeça rapada, qual Rambo ou Schwarzenegger). O gorila foi obviamente instruído para ser mal educado, bruto e carrancudo. A ideia é prestar o mínimo de informações possível aos familiares de pessoas que por ali deambulam, na ânsia de saber noticias sobre os seus entes queridos que se encontram lá dentro. Quatro horas passadas e nada, da minha tia nada. Tentei diálogo com o gorila. Resposta evasiva obtive. Com a sua arrogância já conhecida, disse-me que teria que esperar que “eles” chamassem pelos altifalantes do hospital o meu nome.
Entretanto, toda aquela gente (a sala estava cheia) podia “deleitar-se” com as chegadas constantes de ambulâncias, trazendo pessoas, muitas em muito mau estado, por acidentes na estrada, enfartes, etc etc. o trafego era tanto que por vezes, ali no hall, se juntavam 3 ou 4 doentes, moribundos, aos gritos, esperando o tal pré rastreio.
Acreditem que passadas, 6 horas de estada naquele sitio, o mais calmo e compreensível dos mortais começa a entrar em estado de ebulição. Uma confusão enorme começou a gerar uma raiva desmedida por aqueles fulanos. Aquele sistema, o nosso sistema. Mas estes gajos não se preocupam minimamente em informar os familiares dos doentes do que se passa? Do estado das pessoas? É um sofrimento duplo. Dos que estão lá dentro, e dos que estão cá fora à espera.
Tenho uns amigos médicos que trabalham naquele hospital. Hesitei várias vezes, se deveria fazer o tal telefonema. A cunha, que nos safa sempre nestas situações. Mas não. Pensei. A minha tia não está a morrer, não está em sofrimento atroz, não vou roubar um médico que poderia ser preciso para salvar uma vida, daquelas que se encontravam para ali aos gritos, em agonia pura.
Mas, tenho que saber o que se passa, como ela está, o que lhe estão a fazer. Do gorila, já sabia que respostas eram escassas, por isso resolvi utilizar um outro estratagema. Ali, da sala de espera, liguei através do telemóvel para o geral do hospital perguntando o estado da minha tia. Quem me atendeu, até que foi educado, mas novamente a resposta foi evasiva, menos que o gorila, é um facto, mas dizerem está em observações, não é nada!
Medida drástica. Entrei pela porta, passando pelo gorila, que me tentou impedir, ao qual lhe disse que ele não era funcionário do hospital e eu queria falar com um técnico de saúde. Ele não gostou, tentou empurrar-me para fora, eu gritando, disse. – Quero falar com um técnico de saúde e já! Após tal alarido lá apareceu um enfermeiro a correr. Expliquei-lhe a situação, disse-lhe que não é humano o que eles fazem, mantendo as pessoas desinformadas, sendo rudes e evasivos nas respostas que davam. O alarido foi tal, que um médico também apareceu. Finalmente lá explicaram o que estavam a fazer à minha tia, qual o seu estado, como se encontrava. Tentei explicar novamente àquela gente que deviam, devem, é obrigatório é urgente que mudem a sua atitude relativamente aos familiares das vitimas. Alguns são velhotes, também debilitados e estão para ali sentados..à espera..e esperam..esperam..e choram..e desesperam.... Compreendo a falta de condições e pessoal que os hospitais padecem. Mas substituir um gorila por um funcionário, que acalmasse o espirito daqueles que desesperam não deve ser muito complicado.
Ao fim de 9 horas naquele inferno, pude trazer a minha tia de volta.
É muito triste, é de partir o coração. As pessoas devem ser tratadas com humanismo. Os hospitais devem também pensar nos que sofrem cá fora.
Estamos muito aquém de qualquer sistema de saúde dum país minimamente civilizado.
Como é óbvio irei escrever uma reclamação formal, à direcção do referido Hospital.


medice, cura te ipsum
(Médico, cura-te a ti próprio)


Fiquem bem,
publicado por Zeus às 13:34
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7 comentários:
De Anónimo a 30 de Agosto de 2004 às 23:17
Reclamação essa, caro Zeus, que não te vai servir de nada como penso que tu próprio sabes porque a arrogância e desumanidade dessa gente é tanta (como bem pudeste constatar) que não vão ligar pêvea ao que escreveres :( a não ser claro que uses os teus poderes divinos... abraço.ognid
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De Anónimo a 30 de Agosto de 2004 às 20:25
Mas ainda não reparaste que a prioridade, até no sistema de saúde, não é tratar as pessoas como... gente ? Beijoinconformada
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De Anónimo a 30 de Agosto de 2004 às 17:58
Lamento o sucedido com a tua Tia, aproveito para lhe desejar as melhoras! Pois é Zeus esse é o procedimento habitual, infelizmente são muito pouco humanos... E só quando estão do lado de cá é que percebem... Mas, também é verdadade que o esquecimento é rapido.. Beijinhos, tem uma boa semanaMaria Branco
(http://cumplicidadespartilhadas.blogspot.com)
(mailto:branco_maria@hotmail.com)


De Anónimo a 30 de Agosto de 2004 às 16:47
Eita! Achei seu bolg numa busca sobre...Zeus! é que vou fazer um mês temático no meu blog e dedicar uma semana só pro Zeus, se quiser aparece lá... :*Persephone
(http://www.morteevidaproserpina.weblogger.com.br)
(mailto:)


De Anónimo a 30 de Agosto de 2004 às 15:37
Ó Zeus, porque não entraste com a tua tia?Montellano
</a>
(mailto:)


De Anónimo a 30 de Agosto de 2004 às 15:02
Lamento muito o que te aconteceu, mas tenho para aí uma dúzia de episódios do género para a troca. E até bem piores, como não avisarem as pessoas da morte de um familiar durante a noite e a notícia chegar a casa através de um funcionário de uma casa mortuária. Já vês... Estamos mesmo em Portugal!! Bjslique
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(mailto:lique2@sapo.pt)


De Anónimo a 30 de Agosto de 2004 às 14:39
Bolas, mas toda a gente tem reclamações dos HOSPITAIS, até parece q estamos em Portugal...polittikus
(http://polittikus.blogspot.com)
(mailto:pp@sapo.pt)


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