Segunda-feira, 12 de Julho de 2004

Arte de ser Português

A doce Sara do blog da Libelua (referenciado no Olimpo) enviou mais uma das suas prosas, daquelas que já nos habituou.

libelua.jpg

Que há de novo na Arte de Ser Português? Nada, que eu saiba. O português não muda, adapta-se. Não evolui, “desenrasca-se”. Se não, vejamos. Portugal tem uma larga tradição de subserviência, daquelas que se cola às roupas como fumo de farturas na feira popular e vem nos genes assinalando o grupo cromossónico da raça lusa. Na Idade Média partilhámos com toda a Europa um susseranismo que ainda assim não era vénia e respeito mas medo, imposto pelo terror e prepotência . A vénia e o respeito pelo poder começaram mais tarde e não foram impostos pelo medo, nem por outra qualquer forma de coacção, mas tão só por uma espécie de servilismo de subserviência imbecil, temperado a dinheiro fácil. A Alcoviteira que arranjava moças para os padres e para os senhores Fidalgos "Eu sou aquela preciosa, que criava moças aos molhos para os Cónegos da Sé."*; o Senhor Morgado que era abençoado com a virgindade das moçoilas, os senhores Doutores presenteados com cabazadas de ervilhas, galinhas, perús, enfim, mais recentemente, os porteiros sebosos que usam diferentes ângulos de curvatura consoante a importância daquele a quem abrem a porta... exemplos não faltam. Mas a questão fundamental aqui, está em saber onde pára a moderna subserviência e onde e quando começou o culto dos senhores doutores que todos em Portugal admiram, incluindo os próprios. São por excelência uma classe de prestígio assegurado, na justa medida em que nos são providentes. Podem ser gestores, executivos, administradores, médicos, advogados, juristas ... doutores de gabinete, ou simplesmente intelectuais, alguns dos quais políticos. Têm sempre à sua volta um ou dois lacaios, que são capazes de entregar Jesus aos fariseus ou de oferecer a própria alma da mãe, tudo pelo sucesso do seu chefe e pela carreira que o mesmo lhe assegura. São colaboradores ideias. Nunca contestam e dizem sempre o que os senhores que servem precisam de ouvir. São verdadeiras relíquias na administração pública e, quando a secção treme porque há um Ministro que corta no pessoal, eles são sempre os primeiros a alcançar porto seguro.
Mas, como começou a mordomia? Tudo começou nas sogras e nas mulheres dos senhores Doutores que votaram as suas vidas a impor à criadagem o respeitoso título de Sô Doutor: "Maria, faça o pequeno almoço do Sô Doutor e diga que ele não está. O senhor Doutor não pode ser incomodado." A Maria ao telefone: “Lamento, mas o Sô Doutor não está". Depois o tratamento vulgarizou-se e passou a designar todo e qualquer licenciado, mesmo os que o não são.
E todos os dias agora nascem doutores em campos de cebolas adubados de ignorância, mas estes já não devem chegar ao calcanhar dos doutores de gabinete, políticos de carro preto e motorista, homens que gerem as massas, fazem a história e alteram o curso da justiça. É com estes que o português enche a boca toda, embasbacado com a capacidade destes senhores doutores de resolverem as próprias vidas e "lixar" as alheias com artes de palavreado, esquecimento "prolixo" de processos, cabalas, acordos, alcavalas e favores. "Fique descansado. O Sô Tor está a tratar do assunto".
E nessa linha de troca de serviços, nasceram os modernos Alcoviteiros: "O Sô Tor quer meninos? Com certeza Sô Tor é para já... Vamos arranjar ums putos pró Sô Tor. "
E se o Sô Tor é descoberto? "Qual! Arranja-se um bode expiatório e faz-se uma manobra de diversão. Os meios de comunicação fazem o resto. O Shô Tor tem amigos poderosos, safa-se sempre..."
E é assim que aumenta em Portugal a classe dos porteiros sebosos e se mantém a tradição dos Alcoviteiros que arranjam whisky importado, genuínos havanezes, meninas pró bacanal, "putos" para os mais requintados, mas também intrigas, falsos testemunhos, o todo barrado de subserviência e graxa.
E tudo porque o poder é forte e paga bem, ou porque o português não evoluiu e ainda gosta de servir.
No cabo da Europa, vivemos enroscados numa subserviência nacional, qual cão adormecido pronto a saltar à voz do dono. Ah, não me digam que o português não é subserviente!



* Gil Vicente
Auto da Barca do Inferno


Fiquem bem! Hoje não há latim nem referência musical...
publicado por Zeus às 10:49
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20 comentários:
De Anónimo a 13 de Julho de 2004 às 23:13
Ditto!..M.P.
(http://sabem.blogs.sapo.pt)
(mailto:mnpta@netcabo.pt)


De Anónimo a 13 de Julho de 2004 às 17:46
oi!
ja minha avo diz k ser portugues é ser remediado, falta-nos força para lutar por algo melhor...
jinhosMiss Devil
(http://missdevil.blogs.sapo.pt)
(mailto:Miss-Devil@sapo.pt)


De Anónimo a 13 de Julho de 2004 às 15:17
Zeus, estou precisando do seu email. Qual é? O meu é nazir_zaied@yahoo.com.brNazir Zaied
(http://nazirzaied.blogs.sapo.pt)
(mailto:nazir_zaied@yahoo.com.br)


De Anónimo a 13 de Julho de 2004 às 11:55
Comento com palavras de Pedro Barroso: "Nascemos no alto mar no meio da tempestade
ali a meio caminho
entre o cabo das Tormentas
e o céu do Paraíso
a alma mareante
o fogo de San Telmo
o luto o desespero
pel'alegria breve
de navegar um instante
um século, uma História
enquanto fabricámos
no ventre do porão
paixão

depois, cuidadosamente
encheram-te a cabeça
de histórias de aventura
de batalhas de Ourique
Reis mouros esmagados
de heroísmos vários
de feitos de bravura
de mundos viajados
poemas inflamados
a Grei, Prestes João
o mapa cor de rosa
a virgem aparecida
el-rei D. Sebastião
um Império Mundial
caramba!"Carlos Tavares
(http://omicrobio.blogs.sapo.pt)
(mailto:carlos.roquegest@mail.telepac.pt)


De Anónimo a 13 de Julho de 2004 às 09:51
eu ao contrario de muitos que conheço gostei muito de ler gil vicente, é um espanto
foi muito bem escolhido pois em portugal temos e sempre tivemos quem saiba escrever bem
fica bempatinhas
(http://aliberdadedeescrita.blogs.sapo.pt/)
(mailto:prcpf@latinmail.com)


De Anónimo a 13 de Julho de 2004 às 08:24
Ta na hora de mudar. De nos libertarmos dos preconceitos e do medo do que o vizinho possa dizer.trintapermanente
(http://equilibrioinstavel.blogspot.com)
(mailto:ola1970@sapo.pt)


De Anónimo a 13 de Julho de 2004 às 02:34
E MÁ NADA... hasta. abraçoamateur
(http://salvia.blogs.sapo.pt)
(mailto:andre.faustino@netmedico.pt)


De Anónimo a 13 de Julho de 2004 às 00:47
Zeus deste alojamento aqui no Olimpo a uma Sara LibeLua de primeira água :-) O texto provocou-me dois sentimentos antagónicos (ou não), tal como os de Gil Vicente, vontade de rir e uma profunda tristeza por reconhecer que tudo o que dizes é verdade. Como dizia o Jorge Palma - ai Portugal, Portugal...ognid
(http://catedral.weblog.com.pt)
(mailto:ognid@catedral.weblog.com.pt)


De Anónimo a 13 de Julho de 2004 às 00:14
Hoje não vou comentar o post..tenho é uma curiosodade"inocente": este Zeus usa calças brancas, no Verão????Blueshell
(http://www.BlueShell.Blogspot.com)
(mailto:sengelo@mail.pt)


De Anónimo a 12 de Julho de 2004 às 23:27
Olá. Somos cidadãos do mundo.. :-)atuaLolita
(http://levementerotico.blogs.sapo.pt/)
(mailto:violeta_2002@mail.pt)


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