Quinta-feira, 17 de Junho de 2004

A doença da fome

A Sara companheira do blog da Libelua (referenciado no Olimpo) enviou mais uma das suas prosas (acompanhada da imagem) carregada de emoção e sentimento. Desta vez sobre um tema que infelizmente ainda assola o mundo dos mortais. A doença da fome.
Leiam com atenção e reflictam.

vagabundo_cerca_copia.jpg


A Fome

No meu bairro dos subúrbios a vida decorre calma na aparência, embora não cresçam rosas nos beirais, nem sorriam sardinheiras nas varandas. Divide-se o dia entre o êxodo matinal e o regresso ao fim do dia, desperdiçadas horas em filas de trânsito para a grande cidade. Não eu, que trabalho no bairro dos prédios de nome poético, mas plantados como sementes que a eito caem na terra enxuta. Nem os meus alunos que são os filhos dessa gente de vidas a muito custo arrumadinhas, mas que às vezes adivinhamos humildes e envergonhadas. São brancos, pretos, indianos, muçulmanos, alguns chineses, tudo gente que labuta e precisa de voltar para dormir. Por isso a fome anda por aqui sorrateira, escondida em cada esquina do bairro, com essa cor pálida que nunca se chega a definir como tal, e pode parecer cansaço ou coisa ocasional. Nunca a vi de frente, arranhando janelas ou amarrotando orlas de vestidos. Escondida, sempre escondida, vai mordendo onde pode, mas nunca aos mesmas estômagos, nunca nos mesmos andares, mudando caprichosamente de prédio, como pulga que muda de cão.
Mas hoje, a fome apanhou-me a mim, pelo adiantado da hora, em pleno coração da grande cidade, onde fui porque no meu bairro só existem prédios com camas para as pessoas dormirem e há coisas que só se fazem na grande cidade. Rapidamente me sentei num daqueles lugares inventados para o come-em-pé, ou então com duas ou três mesas em que nos acotovelamos com comensais de ocasião. O empregado costuma acolher-nos com ar de toureiro que espeta as farpas no touro e desaparece em triunfo, e os seus olhos são um convite claro ao come-depressa-para-dar-lugar-a-outro-e-não-compliques. Ok. Carne de vaca guisada. Mas eu já não moro há muito, muito tempo na grande cidade e portanto esqueci-me que lá a fome não se mata nunca, nem se esconde - entra-nos pelos olhos adentro como espadas ou hastes sem flores. Arrasta-se pelas ruas como cão que ferra a todos, deixando um rasto de si nos corações, nos corpos, nos olhos suplicantes, nos estropiados membros, na boca dos milhares de indigentes, velhos, ciganos, criaturas de olhos rasgados e maçãs salientes, pálidas, um português esquartejado, como o corpo que já não se sente...
E ela veio, sorrateira como no meu bairro, abeirar-se de mim, inequívoca, sem se encapotar de tristeza ou cansaço. Comia eu junto à vitrina que dá para a praça do Areeiro dita, esse lugar que respira Estado Novo e tem agora o nome de um político daqueles que nunca teve fome. Levanto os olhos sem bem saber porquê, talvez por me sentir assim uma vitrine de iguarias e esbarro com uns olhos ávidos para o meu prato, à transparência do vidro. Foi breve o ancorar de olhares, mas eloquente a conversa. Um dedo em riste para o prato, agitando-se em muda interpelação e eu que aceno com a cabeça, não sabendo bem o significado do meu gesto afirmativo. E o homem entra pelo restaurante, e antes que o empregado possa reagir, estende a mão para o meu prato e leva à boca quantos bocados lá couberam, um a um, os olhos abertos para comerem também, naquela sofreguidão que foi certamente a contenção de muitas e muitas horas... Ainda me arrebanhou arroz antes de sair, humilde, envergonhado, recurvado para a presa, arrastado pelo braço do diligente patrão da casa... E eu levantei-me para o chamar. Já não o vi. A fome ficou ali também comigo a mirar o rumo dos seus passos, procurando já o seu encalço, como cão fiel que segue, arreganhado, o dono cravando-lhe os dentes na carne, num rasgar sem tino. Eu já não comi. De repente percebi que nunca antes tinha tido fome.

Hoje, ano de 2003, num país à beira do mar, mal plantado...



auri sacra fames
(Maldita fome de ouro)

O som de hoje é bastante antigo e ainda actual. “Live aid", "We are the World,We are the Children...".

Fiquem bem, o fim de semana está à porta, a felicidade paira no ar...afinal ontem os mortais portugueses duma forma ou de outra brilharam.
publicado por Zeus às 09:37
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18 comentários:
De Anónimo a 20 de Junho de 2004 às 12:17
Para nós, as crianças que nunca passaram fome, não só é triste saber. É saber que ainda há.
Triste. Muito triste. Thita
(http://abcdosmiudos.blogspot.com/)
(mailto:thita@iol.pt)


De Anónimo a 18 de Junho de 2004 às 05:15
Afortunados são aqueles que nunca passaram fome.Pior que passar fome acho que só mesmo ver um filho passar por ela.Beijinhos ZeusLara
(http://musicaportuguesa.blogs.sapo.pt)
(mailto:beduda@hotmail.com)


De Anónimo a 18 de Junho de 2004 às 04:16
interessante o texto. Uma triste realidade nas pequenas e grandes cidades. Beijos:DIntensiva
(http://contosefantasias.blogs.sapo.pt/)
(mailto:inttensiva@sapo.pt)


De Anónimo a 18 de Junho de 2004 às 01:42
tens 1 blog mt fx continua!! ;) passa por http://dnp.blogs.sapo.pt_GreenLight_
(http://www.dnp.blogs.sapo.pt)
(mailto:tri@sapo.pt)


De Anónimo a 18 de Junho de 2004 às 01:39

Boa noite Zeus. Vim ainda agradecer-te a publicação do meu texto, que fez esta dúzia de pessoas reflectir sobre o assunto... Passamos, não vemos, ignoramos. Obrigada a todos que tiveram a paciência de ler a história até ao fim. Analfabeto, infelizmente para ti e para todos nós, a história passou-se na TUA grande cidade e não nos meus subúrbios.

Beijinho de boa noite a todos

Sara
(http://oblogdalibelua.blogs.sapo.pt)
(mailto:deSaracomAmor@sapo.pt)


De Anónimo a 18 de Junho de 2004 às 01:00
É...
Nem tudo é poesia, alegrias, flores. Precisamos nos movimentar muito mais, cada um fazendo sua parte, abrindo suas mãos, seus dedos.
A música, embora antiga, é simplesmente maravilhosa.Simone
(http://www.letrasetempestades.zip.net)
(mailto:)


De Anónimo a 17 de Junho de 2004 às 22:07
ai homem... continuo preocupada com as tuas sobrancelhas... mais o teu penteado !!!! tens de ir ao barbeiro !!!! e agora falas de fome... como te entendo, meu querido... tive de recorrer à rata... ai......... aparece.beijinhos da daliaDalia
(http://nelydalia.blogs.sapo.pt)
(mailto:nelydalia@mail.pt)


De Anónimo a 17 de Junho de 2004 às 22:01
A fome é um dos grandes problemas desde sempre... seria suposto ir diminuindo ao longo dos tempos mas não, acho que na actualidade a fome tem crescido enormemente e não apenas nos países pouco desenvolvidos, cada vez mais estão a surgir apenas duas classes, o pobre e o rico... a classe media ou os "remediados" estão cada vez mais a desaparecer... com esse desaparecimento surge cada vez mais fome e desgraça. =| *piolha digital
(http://www.piolhadigital.blogs.sapo.pt)
(mailto:tanuska_santos@yahoo.com.br)


De Anónimo a 17 de Junho de 2004 às 21:43
Adorei este post, é pena que seja real... deixa-me muito, mas mesmo muito triste!!!! Diana!
(http://www.nadaaoacaso.blogspot.com)
(mailto:diana_bnova@hotmail.com)


De Anónimo a 17 de Junho de 2004 às 18:28
Gostei, uma boa descrição dos suburbios... Graças a Zeus eu vivo em plena (quase) cidade de Lisboa.analfabeto
(http://analfabetosexual.blogs.sapo.pt)
(mailto:pp@sapo.pt)


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