Segunda-feira, 24 de Maio de 2004

Vamos partir esta merda toda!!

A Sara do Blog da Libelua (está linkado ao lado) enviou para o Olimpo um texto excelente sobre os pequenos ou grandes mortais que têm a mania de partir e estragar tudo. Expressa a realidade nua e crua dos jovens mortais de hoje. Leiam com atenção pois vale a pena.



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Vandalismo

Fui à procura da palavra depois de a mastigar durante vários dias, sempre que se me oferecia ocasião para rosná-la. Que diabo! Os vândalos! Palavra de origem latina que nos chegou por via erudita e que se aplicou aos primeiros grandes vândalos que a história conheceu: as bárbaras tribos do Norte da Europa. As que vieram por aí abaixo devastando toda a florescente civilização romana, sem respeito pelas mais caprichadas manifestações de arte e cultura. Pois muito bem. Onde andam os modernos destruidores de obras de arte?

A primeira pessoa a quem tal epíteto logo me pareceu oportuno, foi talvez a minha mulher a dias que no seu brio profissional me limpa os livros com um pano húmido, porque só assim o pó vem atrás… Fiz um grande esforço mas não me ocorreram outras situações embora na evolução semântica da palavra hoje em dia esta designe também a destruição de tudo que se encontrar já feito e a funcionar.

Lembrei-me logo do jovem que, no exercício da sua criatividade, adora despejar latas de tinta sobre os carros estacionados sob a sua janela, o que é em si uma forma de ocupar o tempo e produzir a diferença, embelezando e tornando esse carro objecto único na sua espécie e marca! Vandalismo? Não, espírito inconvencional, disse a psicóloga. Inconformismo com a ordem! Necessidade de caos, uma doença moderna que parece vir aí a galgar a montanha. Ok.

Lembrei-me também do rapazito do 3º ciclo que ofereceu a uma inocente menina do 1ª ciclo, não um perfume Gucci ou Van der Bilt, mas a suma criatividade de um frasco de ácido moriático. É claro que a libertação feminina já dotou esta promissora pequena com a argúcia da espécie e esta limitou-se a perfumar o pavimento com o fervilhante “perfume”. Vandalismo? Não, cavalheirismo moderno, ou um louvor à inteligência feminina.

Também não parece causar grande espanto que uma turma leve em apoteose uma tampa de sarjeta para a aula de Inglês, afinal trata-se de um soberbo gesto de protesto contra a língua mais suja do planeta, mas isso são considerações minhas que os rapazes só escolheram aquela aula porque a professora até acha graça a esses gestos.

Ou ainda o supremo manifesto de revolta que consiste em erradicar da face da escola quaisquer inocente banco de sentar, afinal de contas uma escola é um sistema dinâmico de troca de saberes e não há lugares sentados, nem hipótese de estagnação de ideias.

Também me ocorreu aquele grupo de cinco alunos do nono ano que me sobraram de uma visita de estudo e a quem preparara uma aula intensiva de orações subordinadas. Compreendam-nos! Frustados porque os pais não os deixaram ir, (falta de pilim, disseram-me) iam apanhar com a seca das orações quê???? Pois. Aprender a escrever frases com mais do que uma oração, pk? Se bastava saberem as abreviaturas das palavras e nas sms e mails não havia orações subordinadas, nem sequer coordenadas. Nada. Tudo independente! Dei-lhes razão. Vamos ver um filme!

Demorada escolha. Fui persuadindo algo minimamente inteligente, maldizendo a minha antecessora que escolhera aquela tralha toda de faca em riste e sangue jorrando pelas prateleiras! Bem, lá os convenci a ver A Lista de Schindler. É de guerra não é? Boa. Pois foi. Eu bem puxei o brilho ao misterioso Shindler e ao seu olhar arguto que nos conduz no labirinto da crítica, eu bem predisse desastres terríveis para os judeus, eu bem comparei o mercado negro da época com o tráfico de telemóveis da nossa, bem lhes fiz ver que se Hitler fosse vivo, a nenhum de nós chamaria ariano, mas em breve bocejavam aborrecidos, perdido já o fio à meada e porque afinal ainda não tinham visto morrer ninguém.

Azucrinaram-me o juízo para lhes pôr o Blade. Pensando no Blade Runner achei que talvez tivesse alguma hipótese de me surpreender. E teve! Desde o primeiro momento o filme jorrou sangue, salpica-nos directamente de visões de sangue e estas parece que tiveram o condão de escavar um sorriso entusiasta nas bocas dos meus rapazes. Ahhhhhh! Aquilo sim. O sofrimento humano, a agonia da morte mimada em sumo de tomate, cravada a carne juvenil pelos vampirescos realizadores de cinema de Hollywood.

Vandalismo? Não! Vandalizar a carne humana, vandalizar a vida? Não tem cabimento, isso! À carne humana apenas o tempo a vandaliza e portanto tudo o mais é uma salutar inversão das leis da natureza. Fui vomitar e sentei-me contando os minutos que faltavam para tocar.

Ainda hoje ando a ver se dou com situações de vandalismo, mas honestamente ou ando muito distraída ou vivo no concelho mais civilizado do país. Porque não me venham dizer que destruir uma cabine telefónica é vandalismo! Então se a gente lá vai uma vez e outra e aquilo não dá nada! Experimentem a esperar por uma camioneta da Vimeca, da Rodoviária ou por uma autocarro da Carris.

A espera dá-vos tempo e energia para amolgar toda a protecção da paragem, se a houver, ou para desenhar falos erectos em cada edital da empresa. E ainda vos sobra tempo para embirrar com o gajo ronceiro que se prepara para vos passar à frente na fila.

Tão pouco considero vandalismo que se atirem pedras à iluminação pública. Imaginem o que é crescer numa terra sem árvores, nem passarada para atingir à fisga? Como podem as crianças ser primárias e exercer os seus instintos se não for no único alvo à mão de atirar? Entendamo-nos.

A esta nova geração nada mais resta senão estes actos revolucionários, verdadeiramente épicos, de libertação pessoal, porque não lhes foi dada a possibilidade de criar seja o que for. Abriram os olhos e já viram tudo. O mundo já estava todo nos seus devidos lugares, muito arranjadinho, tudo que era preciso ao alcance de um botão ou de um clic.

Ora convenhamos que a inventividade humana não pode de repente recolher-se depois de tantos séculos de aperfeiçoamento das condições de vida, desde o primeiro dia em que um espírito mais iluminado descobriu o fogo! Depois de os nosso genes serem durante séculos e séculos embebidos na ferranha vontade de sobreviver e dominar o ambiente adverso!

Que resta a esta geração? Valorizar um esforço que não entendem? Que esforço? O mundo já foi criado com skates e telemóveis, play-stations e head-phones, carros e lugares cativos na vida! Sempre assim foi desde o primeiro dia.

Aliás, o mundo começou no dia em que pela primeira vez o viram. História. Uma coisa secante que inventam pá malta se passar! Não percebem os adultos que se este mundo dá tudo, nós também queremos tudo? E depressa!

Nada nos é pedido a não ser usufruir e desejar Ter. O verbo Ter conduz destinos e “alevanta” multidões, tal como antes sublevou gentes e povos cobiçosos e ainda hoje continua a determinar a direcção em que sopram os ventos da guerra. O verbo Ter, o deus moderno das civilizações do crepúsculo.

Vandalismo? Destruição. De tudo que mexe. Da perfeição. Da satisfação de quem a tem. Por quem não a conhece. Ou porque demasiada ou porque escassa. Mas no geral é o vazio da civilização que ecoa em cada pontapé desferido no bairro rosa. Em cada carro riscado, em cada vidro partido, cada canteiro destruído, cada golpe de faca desferido, cada morte explodida à distância.

O vazio que nos enche as mãos. E agora? Donde nos pode vir o heroísmo? Já temos tudo? Que nos resta querer? Por que lutaremos se as anteriores gerações já fizeram tudo?! Ou ainda temos algum horizonte para rasgar, alguma terra prometida por que lutar? Enquanto não vêm respostas, que faço com estas mãos, com estas pernas, com este cérebro?

24 de Março de 2004


consuetudo consuetudine vincitur



Hoje, porque é segunda o som deve ser suave e doce…Canção do Mar, Dulce Pontes

Fiquem bem
publicado por Zeus às 10:39
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14 comentários:
De Anónimo a 25 de Maio de 2004 às 09:46
Para a Sara: Dispõe à vontade do Olimpo cara Sara. Ele está ao dispor dos mortais. Zeus
(http://blogdezeus.blogs.sapo.pt/)
(mailto:z_olimpo@sapo.pt)


De Anónimo a 24 de Maio de 2004 às 22:32

ó Zeus, queria agradecer-te este simpático empréstimo do Olimpo para partir a loiça toda... Foi um prazer. Adorei o latinório, (inda bem que não é grego...) e gostei das imagens, mas mais que tudo, mais que tudo, parti-me a rir com o título do post... Bem hajas e que Zeus te eternize como tal...

Beijinho de boa noite

Sara
(http://oblogdalibelua.blogs.sapo.pt)
(mailto:deSaracomAmor@sapo.pt)


De Anónimo a 24 de Maio de 2004 às 22:14
eu k o diga....o k passo nas paragens da camioneta!!***telma_doors
(http://jimmorrisongod.blogs.sapo.pt)
(mailto:telma_benfica@sapo.pt)


De Anónimo a 24 de Maio de 2004 às 22:13
Um texto muito bem escrito e apresentado. Também conheco a escrita da Sara, mas num outro estilo.
Infelizmente o vandalismo está cada vez mais presente nos nossos dias, seja nas escolas, seja no virar da esquina da sociedade em que vivemos.
Quanto ao aspecto dos grafittis, também concordo que nem todos sejam rotulados "Destruição", pois muitos deles conseguem ser uma Arte.
Uma arte muito bem representada da realidade nua e crua.
E depois de tanto vandalismo :P
nada como a Dulce a embalar-nos na Canção do Mar..
Um beijo enorme*meialua
(http://meialua.blogs.spao.pt)
(mailto:luamagica@hotmail.com)


De Anónimo a 24 de Maio de 2004 às 21:12
Fai moi pouquinho vin a Dulce Pontes en concerto na minha cidade. Gosto moitísimo da cantante e da persoa :-)Davidkb
(http://davidkb.blogspot.com)
(mailto:)


De Anónimo a 24 de Maio de 2004 às 16:34
Vieste mesmo ao encontro do meu desejo de hoje...Robina
(http://bosquedarobina.blogspot.com/)
(mailto:hotlulu@iol.pt)


De Anónimo a 24 de Maio de 2004 às 14:54
Que texto! esta muito bem escrito e tem um tema muito interessante. qto á musica... "fui bailar, no meu batel, alem do mar, cruel e..." gosto mtoMagnolia
(http://www.torraodeacucar.blogs.sapo.pt)
(mailto:ISARI1@sapo.pt)


De Anónimo a 24 de Maio de 2004 às 14:48
O ser humano tem uma mente geneticamente, pervertida e vandala... apenas a moral criada, pela sociedade a acorrenta. O homem é o lobo do Homem. LOCK.analfabeto
(http://analfabetosexual.blogs.sapo.pt)
(mailto:pp@sapo.pt)


De Anónimo a 24 de Maio de 2004 às 14:34
Olá amigo Zeus.Ainda ontem comentei com um amigo meu questoes relacionadas com o vandalismo especialmente nos mais jovens.O texto está muito criativo, tentarei dar um saltinho ao blog da autora mais logo.Agora deixo um beijo para ti e um até logoLara
(http://musicaportuguesa.blogs.sapo.pt)
(mailto:beduda@hotmail.com)


De Anónimo a 24 de Maio de 2004 às 13:36

Olá Janette. Fui ao teu blog e gostei imenso. Achei piada à tua idade e ao facto de te interessares sobre este assunto. De facto, o artigo foi escrito para os alunos de uma escola e são eles mesmos os protagonistas. Como tu leram e perceberam. E não, quem faz graffiti não é mau. Eu também gosto de graffiti, e nem acho que o graffiti deva ser sempre entendido como destruição. Há-os muito belos. Mas o texto fala sobretudo das razões que levam as pessoas, os jovens, a destruir o que está feito. Talvez logo publique em tua intenção um conto meu sobre um rapaz que fazia desenhos nas paredes...

Beijinho

Sara
(http://oblogdalibelua.blogs.sapo.pt)
(mailto:deSaracomAmor@sapo.pt)


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